Ataques de Trump a Leão XIV ofuscam viagem a África: “Inqualificável”

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O missionário português Tony Neves, da direção dos Espiritanos, considera “inqualificáveis” os ataques do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Papa Leão XIV, e que ofuscam a importância da viagem do líder da Igreja Católica a África.

“Olho para esta situação com tristeza e com preocupação”, porque é “inqualificável esta tentativa de um Presidente de um país achar que tem o direito e a arrogância de ensinar teologia ao Papa ou ensinar Doutrina Social da Igreja ao Papa”, afirmou à Lusa o missionário português com mais relevo na cúria romana, com assento na direção mundial dos espiritanos.

“Estou preocupado porque corremos o risco de desfocar o essencial da viagem. Se passamos o tempo a falar mais desta guerra do que da viagem, matamos a viagem” do Papa a África, que estava focada na defesa dos valores da Igreja, no diálogo inter-religioso e na promoção do desenvolvimento social, disse Tony Neves.

Donald Trump fez várias críticas a Leão XIV e chegou a publicar uma imagem em que se compara a Jesus Cristo ao mesmo tempo que o vice-presidente, o recém-convertido ao catolicismo JD Vance, disse que o Papa se deveria abster de discutir teologia.

“Eu acho que o Papa esteve bem, na medida em que não quis lançar lenha para a fogueira e tentou esvaziar o balão que Trump tentou encher” e que queria que “rebentasse com grande estrondo”, considerou Tony Neves.

Leão XIV, “com um alfinetinho, furou o balão” e disse apenas: “não tenho medo, eu cumpro a minha missão, eu anuncio o Evangelho e não vou responder a ninguém em particular”.

A resposta do Papa a Trump é uma “proposta clara de um de um projeto de reconciliação mundial”, a partir do diálogo inter-religioso até chegar ao diálogo entre políticos.

“Ser católico está nos antípodas deste tipo de atitudes. O católico por natureza entra em diálogo, entra em concertação e caminha juntos para que as coisas melhorem”, afirmou o missionário.

Falando a partir do México onde está a visitar uma missão dos espiritanos, Tony Neves disse esperar que o Papa se foque nas “questões da doutrina social da Igreja”.

“A Igreja nunca pode passar ao lado do bem-estar das populações e do respeito dos seus direitos mais elementares e, por isso, deve falar de justiça, paz e integridade da criação”.

O Papa chega hoje a Angola, um país onde Tony Neves esteve na década de 1990, acompanhando as primeiras negociações de paz.

“Angola é hoje muito diferente, mas continua a ter muita injustiça social, com gente muito rica e gente muito pobre”, disse.

“Isto tem tudo a ver com as consequências de uma guerra que ainda não foi completamente resolvida e tem a ver, sobretudo, com a forma como a governação continua a atuar em território angolano”, com 50 anos de gestão do mesmo partido, adiantou.

Tony Neves lembrou que “o povo continua pobre, continua abandonado e continua a sofrer e é este povo que o Papa vai encontrar e é esta realidade que o Papa vai propor para que, progressivamente, Angola possa ser um país democrático”.

Depois de ter estado na Argélia e Camarões, Leão XIV chega hoje a Angola, numa longa viagem por África, que termina a 23 de abril, incluindo ainda uma paragem na Guiné Equatorial.

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Por: ndo

Tony Neves

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