Alice Conceição começou a cozinhar aos dez anos. Agora tem a cantina favorita de políticos, atores e atletas famosos.
Quem entra pela porta do restaurante da Cachupa Tia Alice, nas Laranjeiras, e conhece a mulher determinada e alegre por detrás das panelas gigantes dos pratos cabo-verdianos, não imagina o que a trouxe para Portugal. Alice Conceição tinha 30 anos quando, por desespero, deixou o marido e dois filhos menores em São Vicente, Cabo Verde. A única motivação era tentar curar Cláudio Duarte, na altura com dez anos, das sequelas de uma meningite.
“O meu filho tinha apenas três anos quando foi diagnosticado. Na altura disseram-me que por volta dos sete anos iria melhorar. Mas não aconteceu. Cláudio deixou de ouvir e, consequentemente, de falar, por causa da meningite. No meu país não havia meios para o ajudar nem a nível da saúde, nem escolar. A minha única esperança era viajar para Lisboa, onde o meu pai e as minhas irmãs viviam. Sabia que aqui haveria melhores condições”, conta à NiT.
O problema de saúde do filho de Alice já não teve solução, porque como lhe explicaram cá, “era tarde demais”. No entanto, conseguiu encontrar uma escola para ele aprender língua gestual e conseguiu fazer o percurso como um miúdo normal. Agora, com 35 anos, Cláudio Duarte é o mestre das sobremesas da Cachupa da Tia Alice e a mãe não se poupa em elogios.
“Todos os doces são feitos por ele, os clientes adoram. Fartam-se de gabar o pudim de queijo, o molotof e a mousse de camoca, com farinha de milho torrada. Ensinei-lhe tudo, mas agora ninguém pode meter o nariz no canto dele. Adora o que faz.”
Cláudio é uma das peças fundamentais do puzzle que forma a equipa do restaurante lisboeta, aberto desde 2016. A ele juntam-se ainda uma das filhas de Alice, o marido e duas sobrinhas. “Gosto de ensinar à minha família as receitas, porque um dia posso não estar cá. E isto é uma casa familiar, onde os clientes se sentem à vontade e até se riem quando eu vou refilar com eles à mesa”, conta.
O restaurante cabo-verdiano nas Laranjeiras é um dos mais populares deste bairro lisboeta. A grande líder continua a ser Alice Conceição, que aos 55 anos preserva a genica para transportar panelas gigantes com cachupa e moqueca. Aliás, essas receitas começam a ser cozinhadas logo por volta das 6h30 da manhã.
“Durante a semana faço sempre pelo menos duas panelas para garantir que tenho pratos suficientes para servir aos clientes que começam a fazer fila à porta às 12 horas. Ao sábado, têm de ser ainda mais. Mas eu adoro isto, por isso não me custa nada.”
A paixão pela cozinha começou quando era miúda e tinha de preparar as refeições para os dez irmãos. “Sempre adorei fazê-lo. Aprendi com a minha mãe e depois fui aperfeiçoando. Quando vim para Portugal, trabalhei como empregada doméstica e também era muito boa nessas tarefas, mas a minha paixão era a cozinha. Em 2016, consegui aventurar-me e abrir o primeiro espaço, também nas Laranjeiras. Mas rapidamente tornou-se pequeno para tantos clientes e então mudei-me para este, que dá para 60 pessoas.”

Alice toma conta das panelas.
Todos os clientes regulares tratam Alice por tia. A maioria vai lá pela cachupa, pois claro. Ninguém sabe dizer o que tem de especial, mas a proprietária também não revela o segredo. Por dia, são servidos cerca de 100 destes pratos (só ao almoço). Fazem parte de um menu que custa 10€, com direito ao prato, azeitonas, paté de atum, pão fresco, café e sopa. Se não gostar de cachupa, pode sempre pedir muamba, lasanha ou caril de frango, feijoada de congo, moqueca de camarão ou frango de amendoim. Aos sábados e feriados, o peço aumenta para 12€.
“Temos sempre oito sugestões diferentes, mas é certo que ninguém sai daqui sem comer a sopa. Obrigo todos pelo menos a provarem, porque é deliciosa e não leva batata. Os clientes habituais já sabem que sou refilona e quero o bem deles, por isso já nem resmungam. O único dia em que sei que ninguém vai dizer que não come sopa é à sexta-feira, porque é o dia em que servimos a de peixe. Vem gente de longe cá almoçar só por causa deste petisco.”
Outro dos motivos que fazem com que Alice fale mais alto é quando alguém escolhe arroz como acompanhamento dos pratos. “A muamba combina com funcho e a cachupa com couve, mandioca, batata-doce ou outro legume cozido. E quando provam percebem porque fico exaltada.”
Já no que toca à bebida, estes pratos fazem um bom pairing com dois vinhos de produtores cabo-verdianos: o Cretcheu, que em criolo significa “amo-te”, e o Pilon.
No final, há outra certeza: toda a gente quer provar uma das sobremesas de Cláudio Duarte. Estas não estão incluídas no menu, mas os preços também são baratos: 2,20€. Além do popular pudim de queijo, que é feito com queijo de cabra importado de Cabo Verde, existe tarte merengada de limão, cheesecake e mousse.
Durante a semana, o Cachupa da Tia Alice torna-se na cantina favorita dos médicos dos Lusíadas, o hospital que se encontra nas imediações do restaurante. Mas não são os únicos a não conseguir resistir aos pratos da cabo-verdiana. O ator Ricardo Pereira é presença assídua, assim como alguns políticos famosos — caso de Francisco Louçã — e até jogadores de futebol. Por exemplo, o antigo avançado do Benfica, David Neres, era um dos maiores fãs da cozinha de Alice Conceição. O mesmo termo pode ser aplicado à cantora Neya, que descreve a especialidade como “a melhor cachupa de Lisboa”.
Carregue na galeria para conhecer algumas das celebridades que já foram provar a cachupa da Tia Alice.



Por: Catarina Simões
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